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Sem título, com toda a propriedade

Meses de invernia. Manto de nuvens gordas e dominantes, que sopram segredos duros e frios, relegando os sonhos para o mundo dos impossíveis. Os olhos habituam-se à parca luz dos dias e, com o hábito, parece esvair-se a vontade. Engano puro, de quem principia a esquecer o nome das sensações, com medo de se deparar com vocábulos que quer que habitem longe de si. A vontade permanece agarrada a uma não-desistência de explicação dúbia, presa nos escombros da casa que ruiu ao ser apanhada nas teias de um terramoto que nada deve à meteorologia. Em vão procuram os olhos as estrelas das noites abertas. Em vão espreitam nas frestas de céu à procura de uma porção de sol. Em vão aguardam as andorinhas, que se aquecem noutras paragens. Em vão, porque os olhos já mal enxergam, doridos que estão devido à nova cor do mundo. Meses de invernia, que vazam grossas lágrimas lá do alto, como se nada mais houvesse a oferecer, principiaram por encharcar a terra, para depois entrarem pelas lembranças adentro. ...

A natureza tal como é

O céu vai despejando rios, como se estes tivessem passado a morar lá em cima. Parco descanso tem o frio, que recupera depressa da canseira dos dias. E o Inverno foi-se transformando em caminho longo, de fim tão incerto quanto apetecido. Mas o passarinho, talvez mais conhecedor da natureza, talvez menos preocupado em tê-la acorrentada aos seus caprichos, recolhe pedaços do mundo, para criar o seu. Em voos sucessivos vai construindo o ninho, com palhas que transporta no bico. Umas deixa cair. Outras leva ao destino. Porventura importa-lhe mais a eficácia do que a eficiência do processo. Pousa no ramo alto, olha em volta à cata de seguidores e só quando se sente seguro mergulha no interior da árvore. Protege-se, para proteger quem virá. Caem gotas grossas lá de cima. As nuvens pesam na cor do dia. Contudo, o passarinho de penas verdes acredita que nada disso lhe tirará a Primavera. © Elisabete Lucas

Luz, afinal!

Aquele Inverno, aquele longo e duro Inverno insistiu em diluir a esperança, encharcando-a de gélidas gotas, soprando-lhe temporais, cobrindo-a de cinza, para lhe conferir aparência defunta. Os rostos do mundo, os das estradas, os dos jardins, os daqui e de acolá, principiaram a encerrar-se, a tornar-se parcos em sorrisos, a temer olhar em frente, com receio de ver um caminho com fim ou o fim do seu caminho. E sem força para procurar um atalho, um qualquer carreiro que impedisse de esbarrar num beco sem saída, num túnel sem fundo e sem brilho, os olhos atinham-se presos ao chão. A esperança, fustigada e cansada, foi-se abrigando como pôde, nas frestas, nas cavidades das calçadas, nos buracos dos caminhos, nas covas das mais insuspeitas casas que os percursos guardam. Olhando para o chão, os olhos daqueles desanimados rostos, descobriram sobejos da esperança que recusou diluir-se, e os lábios puderam sorrir de novo. Afinal o Inverno, aquele longo e duro Inverno, era finito, como finitas ...

Mar imenso, deixa-me entrar

Mar imenso, deixa-me entrar leva-me para longe, ao infinito além do que os olhos alcançam: onde se forma o arco-íris as cores se fundem os ruídos se ausentam as gentes não chegam as guerras se desconhecem as fomes perdem registo na memória onde o tempo não importa, e eu possa ser como sou sem mais. © Elisabete Lucas

Quando a teoria colapsa

Era uma vez um burro que habitualmente pregava aos sete ventos (havia sempre correntes de ar para aqueles lados!), porque existiam por ali poucos ouvidos predispostos a pregações. Certo dia, ia a passar uma burra com o pêlo todo eriçado (fica a dúvida se levantado pela ventania, se pelo alcance do olhar!), quando lhe deu (a ele) um formigueiro epistemológico. Imitou dois relinchos para tirar o pó da garganta (dando mostras de personalidade, sem querer), e proferiu, levantando o focinho para o vento quente que soprava mais de cima:  — Q uanto melhor não será sentir um amor de morte do que uma morte de amor? A burra franziu o sobrolho e sorriu no canto do grosso lábio. O burro interpretou isso como um interesse invulgar pela sua prelecção, e, ao preparar-se para a subsequente demonstração teórica de tão evoluído raciocínio, sofreu um colapso arterial. Parou o coração, parou o cérebro. Ficou o dito por dizer. Por isso, foi ela quem falou, não sem antes ter imitado dois relinchos para ...

Voa gaivota, encontra o teu destino

Voa gaivota, encontra o teu caminho sobe bem alto, sobe sempre até céu leva-me contigo num qualquer cantinho para que eu, na subida, encontre o meu. Deixa-me ver da lonjura do universo a imensidão do que deixei sem olhar para que eu nesse olhar assim imerso sinta saudade e, quem sabe, queira voltar. Fixo o mar revolto, vigoroso, imenso sigo o teu voo, invejo-te as asas, a liberdade vejo o mundo lá do alto e sem querer penso que o mundo lá em baixo me deixa saudade. Deixa-me ao vento gaivota, segue o teu destino não te prendas à minha própria sorte abro os braços, fecho os olhos, estou a voar sem tino sinto-me, como nunca, a muitas milhas da morte. © Elisabete Lucas

Um belo dia para dormir sobre as ondas

Praia. A inclemência do Sol desincentivaria tal opção em tempos normais. Mas aqueles não eram tempos desses. A chuva que atravessara toda a Primavera prolongara-se pelo início do Verão, até àquele Sábado em particular, em que a temperatura, o ambiente, a luminosidade mudaram por completo o cenário dos dias anteriores, das semanas passadas, em que as janelas mal se abriam, em que as cortinas se mantinham fechadas, como que a isolar os habitantes das casas de um mundo cheio de cinza. O dia era quente e húmido. Trazia as respirações pesadas e os olhos semicerrados. Apesar da inclemência do Sol, sem espanto a praia estava coberta de corpos. Um mar de gente juntava-se a um mar de água mansa, convidativa. O cheiro a maresia, a remeter a memória para a infância feliz de uma praia quase deserta e coberta de algas, enchia o peito com ar doce.   O esforço de encontrar uma migalha de espaço onde estender uma simples toalha estranhamente parecia ter lugar no conjunto das coisas boas de u...