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A descoberta da arte

Isabella, louca para uns, excêntrica para outros. Diferente por opção. Desde pequena que se lhe notava uma tendência para fugir da norma. Desprezava a vulgaridade, o seguidismo, o pensamento pequeno que se sente grande por imitação. O seu desejo era apenas o de se conhecer profundamente. Pertencendo a uma família rica, que habitava num palacete em Sintra, estava farta de ser o centro de um mundo que não queria para si. À sua volta a bajulação era uma constante e a falta de sentido perturbadora. Não lhe interessavam as conversas de circunstância, os objectos de circunstância, os amigos de circunstância. Tudo lhe parecia demasiado efémero para poder ser chamado «vida». Ainda jovem, rodeada de amigas para quem viver era frequentar festas, namorar e andar na moda, descobriu que se desconhecia. E ficou apavorada. Vivia num corpo que o espelho reflectia, onde habitava uma estranha. Quando disse, com a frontalidade que lhe era característica, «vou partir à procura de mim», houve quem desconfi...

Aprender a saudade

Lisboa, 10:30 da manhã. A pressa das gentes que percorre o Chiado ignora a melancolia do violino de Kristina. E menos quer saber da tristeza que inunda a sua alma. O céu está vestido de cinza, colorindo do mesmo tom o coração desta jovem que está na cidade por intervenção do acaso, como se este de quando em vez decidisse agir, para não largar à sorte todos os eventos do mundo. Foi mais ou menos por acção aleatória que Kristina acabou por aterrar na capital de um pequeno país europeu, para aprender uma língua muito distante do sueco, com um sol mais quente e mais presente e com um povo que se diz afável, acolhedor. Com três meses apenas no país, a jovem aprendeu pouco de português e muito de saudade. E sente falta do que lhe é familiar, dos sorrisos que conhece, dos mimos da família e dos amigos, das palavras que a deixam tranquila. Se a língua portuguesa continua a ser para si uma companhia estranha, com a qual convive mal, o fado conquistou-a. Nas manhãs cinzentas, em que se sent...

Um belo dia para dormir sobre as ondas

Praia. A inclemência do Sol desincentivaria tal opção em tempos normais. Mas aqueles não eram tempos desses. A chuva que atravessara toda a Primavera prolongara-se pelo início do Verão, até àquele Sábado em particular, em que a temperatura, o ambiente, a luminosidade mudaram por completo o cenário dos dias anteriores, das semanas passadas, em que as janelas mal se abriam, em que as cortinas se mantinham fechadas, como que a isolar os habitantes das casas de um mundo cheio de cinza. O dia era quente e húmido. Trazia as respirações pesadas e os olhos semicerrados. Apesar da inclemência do Sol, sem espanto a praia estava coberta de corpos. Um mar de gente juntava-se a um mar de água mansa, convidativa. O cheiro a maresia, a remeter a memória para a infância feliz de uma praia quase deserta e coberta de algas, enchia o peito com ar doce.   O esforço de encontrar uma migalha de espaço onde estender uma simples toalha estranhamente parecia ter lugar no conjunto das coisas boas de u...

Foi um, veio outra

No dia em que Simão finalmente se foi, de morte tão inesperada quanto ridícula, os ombros de Claudette curvaram-se um pouco mais, contrariando a quase, quase certeza de que se endireitariam no mesmíssimo minuto em que os seus ouvidos escutassem aquele som sumido e arrastado que caracteriza a fala dos mensageiros de certas notícias: — Lamento informá-la, minha senhora, mas o seu marido acaba de falecer! A história não se passou assim, nem para os ombros, nem para o mensageiro. Uma certeza havia: ele estava visivelmente falecido. Claudette dera-se ao trabalho de procurar no dicionário uma palavra que exprimisse o seu desejo da forma menos cruel possível e “falecimento” ficou-lhe na memória, como se representasse pouco mais de um desmaio permanente. Em dias mais agrestes não chegava e o desejo formulava-se em pensamentos mais fortes: — Vê se morres! Ali estava ele mais do que morto, despedaçado, tão ferido quanto um guerreiro em campo de batalha, coisa sem espanto quando um ca...

Paris, porque sim

— Mulher, que fazes aqui? Perdoem-me começo tão inóspito, mas dificilmente encontraria frase que mais se adequasse a iniciar a curta história que tenho para contar. Porque a realidade é muitas vezes maquilhada para tomar uma beleza que não tem, abstenho-me aqui de adocicar factos ou atribuir qualidades quando os defeitos prevalecem. Não me orgulho da frase que me saiu naquela manhã em Paris, ao ver uma pessoa que me tinha sido tão chegada, ainda que se tivesse distanciado por razões que aqui não trazem acrescento, deitada num banco do Bois de Boulogne, coberta de jornais, para se proteger daquele frio que a cidade sabe tão bem misturar com o sol a descobrir. Mulher, pessoa adulta do sexo feminino. O dicionário sabe pouco sobre aquela de quem falo e eu apenas uns diminutos elementos acrescentarei à sua identificação, por razões de segurança, dela está claro, ainda que não se trate de um caso de polícia mas de um caso de malícia. — Moi? J’attend mon fiancé ! A manhã começara ...

Mudar de vida com um bolo de frutas

Depois de um dia passado no tribunal, Lara chegou a casa, atirou os sapatos para o canto, deixou o vestido caído sobre o soalho, vestiu jeans e um camisolão de lã que lhe dava pelos joelhos, prendeu o cabelo, arregaçou as mangas e enfiou-se na cozinha. Ali sentia que controlava tudo. Ali podia dedicar-se a criar, sem discutir, debater, defender, acusar, sem maquilhagem, saltos altos, cabelo impecável, fato alinhado, sem fingir interesse ou aparentar desinteresse. Ali podia ser ela própria, com a sua vida, infeliz vida, mas sua. Podia chorar, rir, pensar sem se sentir vigiada, deixar descair os ombros, passar as mãos sujas de farinha pela testa. Podia sentir o que lhe apetecia, sem se preocupar com a expressão do rosto, esquecendo por momentos o mundo de aparências em que andava metida. Naquele dia sentia as emoções em completo desalinho. Vira a lei sobrepor-se à justiça, discutira com o chefe por divergências estratégicas na condução de um caso em que estava a trabalhar e, claro, z...