Era uma vez um burro que habitualmente pregava aos sete ventos (havia sempre correntes de ar para aqueles lados!), porque existiam por ali poucos ouvidos predispostos a pregações. Certo dia, ia a passar uma burra com o pêlo todo eriçado (fica a dúvida se levantado pela ventania, se pelo alcance do olhar!), quando lhe deu (a ele) um formigueiro epistemológico. Imitou dois relinchos para tirar o pó da garganta (dando mostras de personalidade, sem querer), e proferiu, levantando o focinho para o vento quente que soprava mais de cima: — Q uanto melhor não será sentir um amor de morte do que uma morte de amor? A burra franziu o sobrolho e sorriu no canto do grosso lábio. O burro interpretou isso como um interesse invulgar pela sua prelecção, e, ao preparar-se para a subsequente demonstração teórica de tão evoluído raciocínio, sofreu um colapso arterial. Parou o coração, parou o cérebro. Ficou o dito por dizer. Por isso, foi ela quem falou, não sem antes ter imitado dois relinchos para ...
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